Da era VUCA ao mundo BANI: a nova liderança em tempos de fragilidade e incerteza
- agostinimarcia
- Oct 21, 2025
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Durante décadas, líderes foram ensinados a navegar em um mundo VUCA – sigla em inglês para Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity. O termo surgiu no ambiente militar norte-americano nos anos 1990 e rapidamente se espalhou pelo universo corporativo. A ideia central era clara: vivíamos em um contexto volátil, incerto, complexo e ambíguo, e os líderes precisavam desenvolver visão estratégica, capacidade de adaptação e pensamento sistêmico para sobreviver.
O modelo VUCA ajudou a preparar executivos para crises econômicas, disrupções tecnológicas e mudanças aceleradas. Porém, a pandemia de 2020 expôs uma nova camada de realidade: não estamos apenas em um mundo imprevisível, mas em um mundo radicalmente frágil e emocionalmente tenso, onde a imprevisibilidade não é exceção – é regra.
Do VUCA ao BANI: a nova lente
Para descrever esse novo cenário, o futurista Jamais Cascio propôs em 2018 o acrônimo BANI:
Brittle (Frágil): sistemas aparentemente sólidos quebram de repente, como cadeias de suprimento globais ou modelos de negócio consolidados.
Anxious (Ansioso): a constante sensação de risco alimenta estresse crônico em pessoas e organizações.
Nonlinear (Não linear): pequenas causas geram efeitos desproporcionais e imprevisíveis.
Incomprehensible (Incompreensível): muitas mudanças são impossíveis de explicar ou prever completamente, mesmo com dados abundantes.
O BANI não substitui o VUCA, mas o aprofunda. Ele nos lembra que não basta ser ágil e adaptável; é preciso ser resiliente, empático e humano.
O IMPACTO NA LIDERANÇA
Se o VUCA exigia líderes estrategistas, o BANI exige líderes integradores e conscientes, capazes de lidar com fragilidade e ansiedade coletivas. Algumas mudanças essenciais:
Da força ao cuidado Liderar não é mais demonstrar poder, e sim criar ambientes de segurança psicológica. Pessoas precisam sentir que podem expor dúvidas, errar e inovar sem medo de punição.
Da previsibilidade ao aprendizado contínuo Planos de cinco anos perdem valor quando um evento inesperado muda tudo em semanas. O líder BANI cultiva uma mentalidade de experimentação e aprendizado rápido.
Da hierarquia rígida à rede colaborativa Decisões centralizadas tornam-se lentas demais. É necessário distribuir autonomia, permitindo que as equipes reajam no ritmo das mudanças.
Da comunicação formal à conexão genuína Em meio à ansiedade, as pessoas querem clareza e proximidade. O líder precisa escutar ativamente, comunicar com transparência e reforçar o propósito comum.
Da certeza à vulnerabilidade Admitir que não tem todas as respostas deixou de ser fraqueza. Hoje, é sinal de coragem e abertura para a inteligência coletiva.
Competências-chave do líder no BANI
Para prosperar, o líder precisa cultivar um conjunto de habilidades que combinam razão e emoção:
Flexibilidade e criatividade: mudar a rota com rapidez e propor soluções fora do óbvio.
Empatia e escuta ativa: compreender medos e motivações da equipe para reduzir ansiedade.
Comunicação aberta e adaptativa: transmitir mensagens claras, ajustando linguagem ao público.
Pensamento sistêmico: perceber conexões invisíveis e antecipar impactos cruzados.
Autogestão emocional: manter equilíbrio mesmo em ambientes caóticos.
Construindo organizações antifrágeis
Liderança no BANI também significa preparar empresas para se tornarem antifrágeis, conceito de Nassim Taleb: sistemas que não apenas resistem ao choque, mas melhoram com ele. Isso envolve:
Incentivar inovação constante, permitindo experimentação com tolerância ao erro.
Diversificar fornecedores, canais e talentos para reduzir dependências críticas.
Promover cultura de aprendizado, em que cada crise vira fonte de melhoria.
Um convite à ação
O salto de VUCA para BANI é mais do que troca de acrônimos; é uma mudança de mentalidade.
Enquanto o VUCA pedia estratégia e agilidade, o BANI exige humanidade, empatia e coragem para liderar em meio ao imprevisível.
Pergunte a si mesmo:
Estou criando um ambiente seguro para que minha equipe fale sem medo?
Sou capaz de admitir vulnerabilidade e aprender com o time?
Minhas decisões consideram a complexidade e a não linearidade do contexto?
Responder a essas perguntas é o primeiro passo para ser um líder relevante neste novo mundo.
Porque, em tempos frágeis, a liderança que mais importa é a que fortalece pessoas.



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